E quando a tristeza é tudo aquilo que conhecemos - Um prisma da Tristeza Patológica
Todos nós vivemos algumas situações tristes. Situações que por vezes nos fazem chorar... Refletir... Questionarmos-nos... Situações que por vezes gostaríamos de esquecer. Sim, situações em que vivenciamos a dimensão tristeza. Esse compartimento cinzento ao qual ninguém está imune. A vida não é fácil... Apresenta-nos constantes desafios. Dilemas. Limites temporais. Finitude. Sim... No meio do arco íris da vida, há períodos de um vazio cinzento. Faz parte. Não tem em atenção género, idade, estrato social ou profissão. Simplesmente surge. A questão aqui não é o cinzento surgir, mas sim o voltar ao arco-íris. Por norma os dias podem ficar cinzentos. Podem evoluir em aguaceiros. Trovada até. Mas depois surge o arco-íris. A esperança de um tempo melhor que se avizinha. De toda a dimensão de um universo de cores que podem ser gozadas. De todo um conjunto de dimensões existentes em simultâneo numa mesma realidade, que em nada se invalidam umas às outras. E nos dão a possibilidade de estarmos tristes num dado momento da nossa vida, numa determinada dimensão, mas gozarmos simultaneamente a alegria e o prazer de vivermos outras determinadas dimensões da nossa vida.
Mas... E quando assim não é??? Quando a tristeza de uma dimensão invade todas as restantes dimensões, roubando-lhes o prazer e alegria de as viver?! Quando o cinzento se abate sobre toda a casa, não se limitando a um só compartimento?! Quando o arco-íris é raptado para parte incerta e por tempo desconhecido?! Quando palavras como esperança, alegria, prazer são meros sons ocos, desprovidos de significado interno?! Quando a falta de sentido é tudo o que preenche todos os nossos sentidos?! Aí... aí não falamos de uma mera tristeza, comum a todos os mortais. Aí, nessa zona demasiado e estaticamente cinzenta, estamos perante algo que é designado de "Tristeza Patológica". Algo que toca à campainha, mas que ao invés de ficar no hall de entrada até ser lidado, se espalha por todos os compartimentos da casa e controla e aprisiona os proprietários. Sim, é isso mesmo! É uma visita inesperada e abusada. E que não mede esforços para se tornar proprietária em vez de visita. E, tal como aqueles "convidados forçados", que nos aparecem inesperadamente em casa, sem tempo de duração da sua visita definido, ela instala-se para ficar. De armas e bagagens!!! Sabe aquele amigo que nos bate à porta apenas para dizer olá? E o olá transforma-se num chá ou café. O chá ou café, num jantar. O jantar, num pernoitar. O pernoitar, nuns dias de abrigo. Os dias, em semanas. Semanas, em meses. E, de repente,
a bagagem vai aumentado. A disposição da sua mobília vai mudando. Objectos novos vão surgindo, no lugar outrora dos seus. E o tempo da sua estada e as suas intromissões nunca mais acabam?! (De certo que se não sabe por experiência própria, já ouviu falar ou assistiu pelo menos nalgum filme...).
Assim é a tristeza patológica. Bate-nos à porta por uma situação específica. Uma determinada dimensão da nossa vida. E de repente controla a nossa autoestima, autoconceito, autoperceção, estado de humor. Transtorna toda a nossa afetividade. Toda a nossa lente através da qual vemos e analisamos a vida e o mundo. Suga toda a nossa energia e vontade/prazer em algo. Ao ponto de perdermos a sensibilidade do paladar, sexualidade, dor física, sociabilidade, sono, entre muitos outros factores. Muitas vezes apenas sobrevivendo um dia de cada vez, em modo "piloto automático", num total e esmagador vazio vivencial.
E assim, uma mera neblina circunstancial, que resolve persistir mais dias do que era esperado, ofusca com o seu cinzento toda a luminosidade da vida. Como uma espécie de um toldo grande, que não permite que tenhamos contacto com o sol de todas as outras dimensões da vida. A questão é que, quando não sabemos lidar positivamente com momentos, circunstâncias tristes, acabamos por lhes dar mais terreno do que o que deveriam ter. E deixamos mais tristezas serem atraídas, multiplicando-se. Como se o tal "convidado à força" se lembrasse de levar convidados para a sua casa, para uma festa de "arromba"!
E, com o tempo, vamos mudando hábitos, padrões de pensamento, sensibilidade afetiva, comportamentos, de tal forma que nos tornamos numa nova versão de nós mesmos. Uma versão liderada e controlada pelo sofrimento intrapsíquico. Tal qual quando temos o tal "convidado" abusado em nossa casa. E habituamo-nos. Porque essa é a realidade que conhecemos. A realidade a que nos acostumámos. A nossa nova rotina. O nosso "novo eu". E totalmente incapacitante e autodestrutivo! E grande parte das vezes negligenciado e incompreendido por aqueles que nos rodeiam. Confundido com uma mera tristeza circunstancial. Ou pessimismo. Ficando cada vez mais fechados dentro de nós. Como um refém de nós mesmos. Daquela tristeza que um dia acolhemos e abraçámos. E à qual, com o tempo, nos habituámos. Sem a mínima noção de toda a dimensão temporal, na qual viria a se instalar... Nem em como se iria multiplicar...
"Mais cedo ou mais tarde, todos somos postos à prova. (...) Para muitos há dois tipos de pessoas que são postos à prova: Os que ficam mais fortes com a experiência e sobrevivem e os que morrem... Mas há um terceiro tipo de pessoas: Os que aprendem a gostar do perigo. Preferem continuar a serem postos à prova, porque é mais fácil enfrentar a dor porque é tudo o que conhecem." (Arrow T2-4)
Muitos de nós não querem lidar definitivamente com a tristeza, pois ela, qual inclino inesperado, acaba por tornar-se tudo aquilo que conhecemos. Tal um bichinho de estimação, é a nossa companhia. A nossa zona de conforto. Aquele que não nos surpreende negativamente, nem nos falha. Não nos cria falsas expectativas. Então, damos-lhe a nossa cama e dormimos com ela. Pois é mais confortável estarmos em território conhecido do que nos aventurarmos por "águas nunca antes navegadas" ou há muito desconhecidas.
Mas cuidado! Quando a tristeza é tudo aquilo que conhecemos, é tudo aquilo que nos resta. E tudo aquilo a que nos entregamos. De corpo e alma... E isso... Isso, é tudo aquilo que, pedaço a pedaço, nos destrói...
Portanto, tenha em atenção ao que abre a porta da sua vida. E seja criterioso ao que deixa instalar-se nas dimensões da sua vida. Pois afinal há toda uma palete de cores para preencher as paredes da nossa vida, cheias de vivacidade e leveza. E nos influenciar positivamente no nosso dia a dia. Não "estacione" no temporal. Nem o deixe "estacionar" em si. Afinal, depois da chuva sempre vem o arco-irís...
Mas... E quando assim não é??? Quando a tristeza de uma dimensão invade todas as restantes dimensões, roubando-lhes o prazer e alegria de as viver?! Quando o cinzento se abate sobre toda a casa, não se limitando a um só compartimento?! Quando o arco-íris é raptado para parte incerta e por tempo desconhecido?! Quando palavras como esperança, alegria, prazer são meros sons ocos, desprovidos de significado interno?! Quando a falta de sentido é tudo o que preenche todos os nossos sentidos?! Aí... aí não falamos de uma mera tristeza, comum a todos os mortais. Aí, nessa zona demasiado e estaticamente cinzenta, estamos perante algo que é designado de "Tristeza Patológica". Algo que toca à campainha, mas que ao invés de ficar no hall de entrada até ser lidado, se espalha por todos os compartimentos da casa e controla e aprisiona os proprietários. Sim, é isso mesmo! É uma visita inesperada e abusada. E que não mede esforços para se tornar proprietária em vez de visita. E, tal como aqueles "convidados forçados", que nos aparecem inesperadamente em casa, sem tempo de duração da sua visita definido, ela instala-se para ficar. De armas e bagagens!!! Sabe aquele amigo que nos bate à porta apenas para dizer olá? E o olá transforma-se num chá ou café. O chá ou café, num jantar. O jantar, num pernoitar. O pernoitar, nuns dias de abrigo. Os dias, em semanas. Semanas, em meses. E, de repente,
a bagagem vai aumentado. A disposição da sua mobília vai mudando. Objectos novos vão surgindo, no lugar outrora dos seus. E o tempo da sua estada e as suas intromissões nunca mais acabam?! (De certo que se não sabe por experiência própria, já ouviu falar ou assistiu pelo menos nalgum filme...).
Assim é a tristeza patológica. Bate-nos à porta por uma situação específica. Uma determinada dimensão da nossa vida. E de repente controla a nossa autoestima, autoconceito, autoperceção, estado de humor. Transtorna toda a nossa afetividade. Toda a nossa lente através da qual vemos e analisamos a vida e o mundo. Suga toda a nossa energia e vontade/prazer em algo. Ao ponto de perdermos a sensibilidade do paladar, sexualidade, dor física, sociabilidade, sono, entre muitos outros factores. Muitas vezes apenas sobrevivendo um dia de cada vez, em modo "piloto automático", num total e esmagador vazio vivencial.
E assim, uma mera neblina circunstancial, que resolve persistir mais dias do que era esperado, ofusca com o seu cinzento toda a luminosidade da vida. Como uma espécie de um toldo grande, que não permite que tenhamos contacto com o sol de todas as outras dimensões da vida. A questão é que, quando não sabemos lidar positivamente com momentos, circunstâncias tristes, acabamos por lhes dar mais terreno do que o que deveriam ter. E deixamos mais tristezas serem atraídas, multiplicando-se. Como se o tal "convidado à força" se lembrasse de levar convidados para a sua casa, para uma festa de "arromba"!
E, com o tempo, vamos mudando hábitos, padrões de pensamento, sensibilidade afetiva, comportamentos, de tal forma que nos tornamos numa nova versão de nós mesmos. Uma versão liderada e controlada pelo sofrimento intrapsíquico. Tal qual quando temos o tal "convidado" abusado em nossa casa. E habituamo-nos. Porque essa é a realidade que conhecemos. A realidade a que nos acostumámos. A nossa nova rotina. O nosso "novo eu". E totalmente incapacitante e autodestrutivo! E grande parte das vezes negligenciado e incompreendido por aqueles que nos rodeiam. Confundido com uma mera tristeza circunstancial. Ou pessimismo. Ficando cada vez mais fechados dentro de nós. Como um refém de nós mesmos. Daquela tristeza que um dia acolhemos e abraçámos. E à qual, com o tempo, nos habituámos. Sem a mínima noção de toda a dimensão temporal, na qual viria a se instalar... Nem em como se iria multiplicar...
"Mais cedo ou mais tarde, todos somos postos à prova. (...) Para muitos há dois tipos de pessoas que são postos à prova: Os que ficam mais fortes com a experiência e sobrevivem e os que morrem... Mas há um terceiro tipo de pessoas: Os que aprendem a gostar do perigo. Preferem continuar a serem postos à prova, porque é mais fácil enfrentar a dor porque é tudo o que conhecem." (Arrow T2-4)
Muitos de nós não querem lidar definitivamente com a tristeza, pois ela, qual inclino inesperado, acaba por tornar-se tudo aquilo que conhecemos. Tal um bichinho de estimação, é a nossa companhia. A nossa zona de conforto. Aquele que não nos surpreende negativamente, nem nos falha. Não nos cria falsas expectativas. Então, damos-lhe a nossa cama e dormimos com ela. Pois é mais confortável estarmos em território conhecido do que nos aventurarmos por "águas nunca antes navegadas" ou há muito desconhecidas.
Mas cuidado! Quando a tristeza é tudo aquilo que conhecemos, é tudo aquilo que nos resta. E tudo aquilo a que nos entregamos. De corpo e alma... E isso... Isso, é tudo aquilo que, pedaço a pedaço, nos destrói...
Portanto, tenha em atenção ao que abre a porta da sua vida. E seja criterioso ao que deixa instalar-se nas dimensões da sua vida. Pois afinal há toda uma palete de cores para preencher as paredes da nossa vida, cheias de vivacidade e leveza. E nos influenciar positivamente no nosso dia a dia. Não "estacione" no temporal. Nem o deixe "estacionar" em si. Afinal, depois da chuva sempre vem o arco-irís...
Marta De Brito Cunha
Psicóloga Clínica
Psicóloga Clínica