Marta de Brito Cunha
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Inevitabilidades - Autocomiseração ou Crescimento interpessoal?

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Em pequena gostava muito de uns chupas que eram totalmente azedos ao início. E só posteriormente de sair se tornavam deliciosamente doces, após sair a camada ácida. Eram os meus preferidos! Adorava aquele agridoce. O contraste de sabores. Valia a pena as caretas inevitáveis que aquele sabor ácido provocava (e por vezes algumas aftas). Pois potenciava e evidenciava posteriormente o sabor doce. O doce era tão doce, devido ao ácido.

E assim também vai sendo a vida. Vamos crescendo e, tal como as crianças ao longo do seu desenvolvimento físico, vamos somando as inevitáveis dores do crescimento. Colecionando muitos momentos doces. Momentos felizes e memoráveis. Mas também os inevitáveis e indesejados momentos ácidos. Muitas vezes totalmente inesperados. Momentos que daríamos tudo para os contornar. Mas que por vezes se manifestam incontornáveis e assustadoramente maiores que nós mesmos. Momentos que muitas vezes julgávamos só acontecerem aos outros!
Mais cedo ou mais tarde todos somos irremediavelmente acometidos por tais momentos. Momentos sob as mais diversas formas. Sejam elas doenças inesperadas. Despedimentos. Alterações de finanças. Relações falhadas. Amizades traídas, etc... E por vezes, o impacto é tão duro que altera a vida tal como a conhecíamos.


E é aí que muitas vezes vem o sentimento de impotência. De injustiça... De não merecimento... De indignação... De não aceitação... Negação... De questionamento/dúvida... Comparações... Revolta...
E é então que a autocomiseração, vai ganhando cor e forma. E conquistando dia após dia terreno.

Embora seja justo sentir pena de si quando é vítima de uma injustiça ou doença inesperada, a mesma não o ajudará. Enquanto pensar que não merece tal situação... Porquê você... Porquê nesta fase da sua vida... Porquê desta maneira... Em como é injusto... Por mais que isso seja compreensível e razoável, essa atitude far-lhe-á entrar num círculo negativo. Cujo rumo leva a uma espiral destrutiva. Ficando, tal como uma embarcação naufragada, estagnado na adversidade.

As coisas muitas vezes acontecem não por sermos más pessoas, ou merecedoras de tal, ou por algo que tenhamos feito. Muitas simplesmente acontecem porque sim. (Por mais difícil que seja aceitar isso). Porque estamos a desenvolver. E, para tal, precisamos crescer. E crescer implica dores. 



Tal, como os chupas, é o ácido da vida que salienta e valoriza o doce. É o escuro dos quadros que salienta o giz. É o cansaço do trabalho, que valoriza as férias. É o barulho, que valoriza o silêncio. É a dor que valoriza o desenvolvimento interpessoal e nos faz crescer. Podemos ter pena de nós mesmos. É perfeitamente lícito! É até razoável e compreensível. Mas aí nunca pararemos de andar em círculos centrados em nós mesmos. Na nossa dor. Naquilo que nos atingiu. De como nos limitou ou "roubou algo". Multiplicando e prolongando o sofrimento intrapsíquico. E ficaremos emocionalmente presos a esse acontecimento infeliz, meses ou até anos a fio. Ou podemos aceitar que há muita coisa que não controlamos. Que a vida está cheia de inevitabilidades. Mas que são essas mesmas incontornáveis inevitabilidades que nos dão oportunidades incríveis de nos superarmos a nós mesmos, rumo a uma melhor edição nossa. Afinal de contas, "o mesmo Sol que enrijece o barro, derrete a cera". Está nas nossas mãos decidirmos a autopiedade ou o crescimento interpessoal. A limitação ou o desenvolvimento. A autodestruição ou a construção.


Perante os desafios da vida tem direito à sua justificável autocomiseração. Sim!... Mas acima de tudo, tem o dever para consigo mesmo de se reeditar num melhor ser. E o de não deixar que as inesperadas inevitabilidades da vida o definam.

Marta De Brito Cunha
Psicóloga Clínica
[email protected]